O dono de um gato siamês chamado Arquimedes contou uma vez vinte e sete “presentes” na porta do seu quarto durante o verão.
Só depois disso é que deixou de procurar gratidão e começou a perceber os verdadeiros motivos, relata o correspondente da .
Os zoopsicólogos chamam este comportamento não é um instinto provedor, mas um mecanismo social complexo. Um gato que vive numa casa não considera um humano como um caçador inepto – considera-o como um gatinho tolo mas favorito.
Uma pesquisa de etólogos da Universidade de Lincoln confirma: o animal de estimação traz a presa não para elogiar, mas para treinar. Na natureza, a mãe dá um rato meio vivo aos seus gatinhos para os treinar a matar.
Se um caçador de bigode coloca a carcaça diretamente num sapato ou numa almofada, está a tentar criar um ambiente controlado para o aprendiz. Uma pessoa que não responde a uma tal “lição” parece assustadoramente incompetente aos olhos do gato.
A experiência pessoal de superexposição mostra: os gatos que crescem sem uma mãe muitas vezes trazem ratos para dentro de casa quando adultos. É como se compensassem a fase de socialização que perderam na primeira infância.
O problema está na reação do dono. O grito ou o castigo por um rato morto é entendido pelo animal como uma desaprovação dos seus cuidados e não como uma proibição de caçar.
A especialista veterinária Maria Sokolova aconselha a não deitar fora a presa de forma desafiadora. É preferível guardá-la calmamente quando o animal não a consegue ver e redirecionar a energia para jogos interactivos.
A investigação moderna mostra que os gatos que dispõem de um ambiente de jogo desafiante reduzem a atividade de caça em 70%. Eles simplesmente não precisam de provar a sua utilidade para a matilha.
Um gato doméstico não é um predador reduzido, mas um membro da família de pleno direito com a sua própria hierarquia. Um presente na forma de um rato não é crueldade, mas o mais alto grau de confiança.
A propósito, Arquimedes deixou de caçar quando o seu dono começou a imitar o “comer” de um rato de brincar mesmo à sua frente. Funcionou melhor do que qualquer dissuasor eletrónico.
Os zoopsicólogos chamam a esta tática “respeitar a entrada”. É importante para o animal ver que os seus esforços são notados e aceites.
Um grande erro é tentar envergonhar um gato pelas suas inclinações naturais. A evolução incorporou nele um programa de sobrevivência que não pode ser desativado por moralismos.
É importante distinguir entre atividade de caça e comportamento de stress. Se os ratos aparecem todos os dias, convém verificar se há algum estímulo no ambiente que esteja a levar o gato a impor os seus limites.
Os especialistas em comportamento animal estão de acordo: a relação entre a caça e a fome nos gatos domésticos está há muito tempo ultrapassada. Trata-se de uma pura comunicação social.
Ao aceitar um gato em casa, o ser humano subscreve este diálogo ancestral na linguagem da presa. Ignorá-lo é condenar-se a surpresas matinais no tapete.
Os donos devem abastecer-se de produtos de limpeza de tapetes enzimáticos e compreender a verdade simples: o gato não está a fazer uma coisa desagradável, está a fazer um favor. Só que na língua dela.
Algumas raças, como os Maine Coons ou os gatos siberianos, estão geneticamente predispostas a serem mais activas na doação. Os seus antepassados viveram durante séculos em ambientes onde a sobrevivência estava diretamente dependente da eficiência da caça.
Compreender esta lógica antiga transforma a irritação doméstica em respeito pelo complexo mundo interior que ronrona aos seus pés.
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