Numa época de transparência total, em que conhecemos o nosso parceiro até aos mais pequenos hábitos, o importante que nos escapa é o mistério que alimenta o desejo.
Abrimos todas as cartas, partilhamos todos os pensamentos, pedimos relatórios sobre cada passo e perguntamo-nos porque é que o interesse desaparece, relata o correspondente do .
A sabedoria psicológica diz: o desejo vive onde há subestimação, onde há espaço para a fantasia e a especulação.
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A previsibilidade total mata a atração, porque uma pessoa quer não só possuir, mas também descobrir, interrogar-se, adivinhar.
Não se trata de mentiras e segredos, trata-se da capacidade de preservar o seu território interior, onde o parceiro entra não como um anfitrião, mas como um convidado. Um convidado que é bem-vindo, que não remexe nas gavetas, mas que desfruta do que lhe é mostrado.
Os estudos demonstram: os casais em que cada um tem a sua própria vida, os seus próprios interesses, os seus próprios pensamentos que não são trazidos para discussão pública, mantêm a sua paixão viva durante mais tempo.
Porque cada vez que um parceiro regressa do seu mundo ao mundo comum, traz consigo uma novidade.
O segredo não tem de ser destrutivo, não tem a ver com batota e engano, tem a ver com respeito pelo espaço pessoal. Trata-se de ter o direito a um diário, a encontrar-se com amigos sem o seu parceiro, a ter pensamentos que ficam apenas consigo.
Quando deixamos de exigir transparência total, deixamos de ser vigiados e deixamos de nos sentir vigiados.
E nesta liberdade nasce o próprio desejo que não pode ser induzido artificialmente, mas que é facilmente sufocado pelo controlo.
Deixar espaço para o segredo significa confiar no seu parceiro e em si próprio o suficiente para não precisar de um controlo total.
E onde há confiança, há a faísca que se acende mesmo depois de muitos anos de proximidade.
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