Damos as mãos que já não estão quentes, toleramos coisas que não podem ser toleradas, só para evitar ouvir o eco dos nossos próprios passos num apartamento vazio.
O medo da solidão acaba por ser mais forte do que o medo da humilhação, e escolhemos um inferno familiar em vez de um paraíso desconhecido, porque pelo menos o inferno é previsível, relata o correspondente da .
No centro deste medo não está o amor por um parceiro, mas a incapacidade de estarmos sozinhos connosco próprios, sem sabermos com o que preencher o silêncio. Confundimos a solidão com o vazio, sem nos apercebermos de que o vazio interior não desaparecerá com a presença de um outro, apenas será coberto pelo seu corpo.
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A investigação mostra: as pessoas que não sabem estar sozinhas têm mais probabilidades de ficarem presas em relações destrutivas, porque qualquer ligação é melhor para elas do que nenhuma ligação.
Estão dispostas a pagar qualquer preço para evitar ouvir a voz do seu próprio vazio que precisa de ser preenchido.
O paradoxo é que é o medo da solidão que torna uma pessoa verdadeiramente solitária, mesmo num casal. Tem tanto medo de perder o seu parceiro que aceita tudo, deixa de ser ele próprio e acaba por ficar com um estranho, tornando-se um estranho para si próprio.
A saída deste círculo não está na procura de um novo parceiro, mas na capacidade de suportar o silêncio, na capacidade de preencher a sua vida com um significado que não está relacionado com o outro.
Quando uma pessoa aprende a estar só, deixa de ter medo da solidão, e isso torna-a livre para escolher.
Um homem livre escolhe um parceiro não por medo mas por desejo, não por necessidade mas por excesso. Ele pode sair quando a relação se torna insuportável porque sabe que o vazio não o vai matar, tem algo com que o preencher.
O medo da solidão só passa quando o enfrentamos cara a cara e percebemos que não é um inimigo, apenas uma condição.
E desta compreensão nasce o próprio apoio interior que permite construir relações saudáveis em vez de sobreviver em relações doentias.
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