Desde a infância que nos ensinam a estar à vontade: não ser maroto, não nos contrariar, não ser incómodo, e chegamos à idade adulta com a atitude de que o amor deve ser conquistado pela obediência.
Temos medo de dizer “não”, medo de incomodar, medo de parecer difíceis, e nesse medo perdemo-nos, relata o correspondente do .
Um parceiro confortável é uma pessoa que não tem os seus próprios desejos, as suas próprias opiniões, o seu próprio direito de estar de mau humor.
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Ajusta-se sempre, concorda sempre, faz sempre o que o outro quer e fica à espera da gratidão que, de alguma forma, não chega.
Os psicólogos sabem: a comodidade constante leva à acumulação de agressividade latente, que um dia irrompe na forma mais feia.
Os ressentimentos acumulados manifestam-se sob a forma de sarcasmo, de agressividade passiva ou de um retraimento súbito que, para o parceiro, se torna um estrondo.
Estar desconfortável, por vezes, significa afirmar os seus limites, mesmo que isso cause ressentimento. Significa dizer “estou cansado” em vez de “sim, claro que vou ajudar”, e “preciso de estar sozinho” em vez de “está tudo bem, vou ser paciente”.
O medo de ser incomodado está muitas vezes ligado à crença de que, se deixar de agradar, deixarei de ser amado.
Mas a verdade é que o amor construído sobre a obsequiosidade cai por terra na primeira rejeição, porque não foi construído sobre si, mas sobre a sua utilidade.
As relações saudáveis suportam o desconforto porque amam a pessoa que as constitui, não a sua maleabilidade. O seu parceiro pode ficar chateado, pode discutir, mas não deixará de o apreciar por ter a sua própria cabeça sobre os ombros.
Aprender a sentir-se desconfortável por vezes significa aprender a respeitar-se e a confiar que será respeitado por isso.
E quando essa confiança surge, a relação não se torna um jogo de dar e receber, mas um encontro de dois mundos separados que escolheram estar lado a lado.
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