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A agressividade na adolescência não é uma anomalia rara, mas um sinal complexo sobre emoções, relações e ambiente
A agressão dos adolescentes aos pais é um tema que raramente é falado em voz alta. Provoca vergonha, medo e silêncio. No entanto, este comportamento é muito mais comum do que se pensa e nem sempre é sinónimo de desastre.
A agressão física das crianças contra os pais parece ser algo de excecional, mas a ciência diz o contrário, segundo a News Medical. Segundo um estudo de grande envergadura realizado pela Universidade de Zurique, quase um em cada três adolescentes (32,5%) admitiu ter agredido fisicamente os pais, pelo menos uma vez, entre os 11 e os 24 anos de idade, empurrando, batendo ou atirando objectos.
O estudo durou quase 20 anos e incluiu mais de 1500 participantes que foram seguidos desde o início da adolescência até à idade adulta. E aqui é importante esclarecer que, na maioria dos casos, se trata de explosões isoladas num contexto de conflitos emocionais durante a puberdade. Não estamos a falar de violência sistémica ou de “miúdos maus”.
Peak tem 13 anos de idade
A taxa mais elevada de episódios de agressividade foi registada aos 13 anos de idade, com cerca de 15% dos adolescentes a relatarem tais episódios. A frequência diminui acentuadamente com a idade e estabiliza em cerca de 5% aos 24 anos.
Este é um sinal importante para os pais de que a agressividade na adolescência é muitas vezes uma fase de desenvolvimento e não um veredito. Outro aspeto que alertou os investigadores foi o facto de duas em cada cinco pessoas que demonstraram agressividade o terem feito repetidamente.
Quem está em risco
É interessante notar que o estatuto social, a educação dos pais e o nível de rendimento não são decisivos neste caso. O problema existe em todos os ambientes. No entanto, o estudo revelou factores de risco claros:
- Agressão no seio da família. Castigos físicos e gritos, humilhações ou abusos verbais. As crianças aprendem pelo exemplo e não pelas palavras. Se os conflitos na família são resolvidos pela força, elas adoptam esse modelo.
- Conflitos frequentes entre os pais. Mesmo que a criança não participe diretamente, ela interioriza o estilo de interação.
- Sintomas de PHDA. Os problemas de impulsividade e de autocontrolo, multiplicados pelo cansaço dos pais, aumentam o risco de situações explosivas.
O que é que realmente protege
Apesar dos números alarmantes, o estudo oferece muita esperança.
- Competências de regulação emocional. As crianças que sabem dar nome às suas emoções, lidar com a raiva e resolver conflitos sem gritar têm muito menos probabilidades de recorrer à agressão física.
- Parentalidade de apoio. A atenção regular, o interesse, a presença emocional e um sentimento de segurança reduzem muitas vezes o risco.
- Intervenção precoce. Desenvolver a inteligência emocional e as competências de comunicação construtiva antes da escola é um investimento para os anos vindouros.
Quando ter cuidado
Os conflitos entre os adolescentes e os pais são normais e até necessários para o desenvolvimento. Mas os especialistas aconselham a prestar atenção se:
- a agressão é repetida e está a aumentar;
- não há sentimentos de culpa ou remorso;
- o comportamento agressivo estende-se para além da família.
Esta situação já não é “ultrapassada”, mas sim um sinal de alerta.
A agressão na adolescência não é uma anomalia rara, mas um sinal complexo de emoções, relações e ambiente. Na maioria dos casos, trata-se de explosões temporárias, mas é o ambiente familiar, o estilo parental e as competências de regulação emocional que determinam se o problema desaparece ou se instala. Básicos:
- Menos castigos – mais diálogo.
- Menos vergonha – mais apoio.
- Menos silêncio – mais compreensão.
Porque os adultos saudáveis crescem onde as emoções difíceis não são proibidas, mas ensinados a viver com elas.

